O
presente artigo procura dar uma pequena possibilidade de reflexão concernente a
um tema da filosofia leibniziana, a saber, a problemática que envolve a
teorização de um determinismo que parece ser o mais fechado possível com a
liberdade, no que diz às criaturas e ao mundo criado. Partindo da “Noção
Completa” e baseando-se, restritamente, no parágrafo 13 da obra Discurso de
metafísica de Leibniz, procura-se tratar que, mesmo com a aparente contradição,
no sistema leibniziano, tanto um determinismo inevitável quanto uma liberdade
legítima são assuntos não apenas possíveis, mas compossíveis.
Palavras-Chaves
- Leibniz, determinismo, liberdade, “Discurso de metafísica”.
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“Como a noção individual de cada pessoa encerra de uma vez por todas quanto lhe acontecerá, nela se vêem as provas a priori da verdade de cada acontecimento ou a razão de ter ocorrido um de preferência a outro. Estas verdades, porém, embora asseguradas, não deixam de ser contingentes, pois fundamentam-se no livre-arbítrio de Deus ou das criaturas, cuja escolha tem sempre suas razões, inclinando sem tornar necessário.”
“Como a noção individual de cada pessoa encerra de uma vez por todas quanto lhe acontecerá, nela se vêem as provas a priori da verdade de cada acontecimento ou a razão de ter ocorrido um de preferência a outro. Estas verdades, porém, embora asseguradas, não deixam de ser contingentes, pois fundamentam-se no livre-arbítrio de Deus ou das criaturas, cuja escolha tem sempre suas razões, inclinando sem tornar necessário.”
Leibniz – Discurso de metafísica
A noção
individual de cada pessoa, em outros momentos da teorização leibniziana: Mônada
reúne absolutamente todos os acontecimentos que se desenrolarão no destino de
cada sujeito. Num determinismo anunciado, as provas a Priori de um acontecimento em preferência a outro, estão
inscritos na substância individual, e no tempo, encontram ocasião de se fazerem
visíveis. Tal colocação que abarca todos os fatos do mundo bem como os sujeitos
que nele se encontram, porém, concilia-se com a contingência, pois fundada no
livre arbítrio de Deus, das quais às das criaturas também têm expressão,
garante que a possibilidade de todos os fatos não contraditórios (em sentido
amplo) seja real, garantindo que o determinismo, embora seja certo, não suprima
completamente a liberdade.
A conciliação
entre essas duas vias que parecem contraditórias é insistida em todo percurso
do Filósofo, e algumas colocações são necessárias para elucidar a questão.
“Visto que Júlio
César haverá de tornar-se ditador perpétuo e senhor da república e suprimirá a
liberdade dos romanos, esta ação está contida na sua noção...” [1].
Ora, como dito, visto que os acontecimentos estão contidos, todos, na noção
individual, no exemplo posto pelo próprio Leibniz, Júlio César em suas ações
que se desenvolverão, tem em sua substância individual a história do
desdobramento de cada ação que se fará em seu destino. Os fatos de suprimir a
liberdade dos romanos e ser ditador perpétuo, ainda que escapem à “visão” antes
de serem fatos empíricos do próprio Júlio César, são realidades no interior de
sua substância desde seu nascimento. Continua Leibniz: “... porquanto supomos
ser da natureza da noção perfeita dum sujeito compreender tudo acerca dele.” [2] A
noção perfeita dum sujeito, e perfeita no máximo grau, pois assegurada pela
criação de Deus que faz sempre o melhor possível, dessa forma, encerra em si
mesma, como princípio, toda história de cada sujeito, abarcando todos os
eventos que venham a se realizar. Tendo sido Deus o Obreiro que deu a Júlio
César tal noção “... é necessário satisfazê-la” [3].
Tudo parece caminhar para o mais alto nível da impossibilidade de se assegurar
a liberdade, já que o mundo, criado na mais perfeita ordem e, como assevera o
Filósofo: “é agir imperfeitamente agir com menos perfeição do que se teria
podido” [4],
não pode ser diferente, se tal fosse, colocaria a questão de não ter sido o
melhor possível em sua criação e desdobramento. Coisa impensada para Deus: “...
um Ser absolutamente perfeito” [5].
A distinção
entre Necessário e Certo lançada por Leibniz, contudo, nos mostra que o
determinismo impresso na noção individual não exclui a contingência, e logo, a
liberdade. Expliquemos. O fato de Júlio César ter preferido “... atravessar o
Rubicão a deter-se nele” [6] é
algo certo, afinal “... Deus se propôs a fazê-lo, pois Deus nada faz por acaso,
nem se assemelha a nós, a quem por vezes escapa fazer o bem” [7].
Dessa forma, Júlio César atravessa o Rubicão e nele não se detém, pois em sua
noção individual tal evento encontra-se posto. Mas pensar outra possibilidade
para o acontecimento não implica qualquer contradição lógica, a saber, Júlio
César poderia sem problemas haver se detido no Rubicão. Dizemos disso, sem
erro, que: “É certo, mas não necessário o que se sucede em conformidade a estas
antecipações, e que se alguém fizesse o contrário não faria coisa em si
impossível, embora fosse impossível que tal acontecesse.” [8]
Tal distinção que Leibniz nos apresenta parece garantir a contingência dos
eventos. Detenho-me mais. Estar aqui, nesse momento, fazendo tal trabalho, é
algo certo, visto que esse acontecimento encontra-se incluído em minha noção
individual, e, portanto irá se desenvolver e será parte da história de meu
destino. Todavia, em nível da Necessidade,
não se pode dizê-la de tal evento sem incorrer num erro. Verdades matemáticas,
como a soma dos ângulos internos de um triângulo ser 180 graus, são enquadradas
como verdades que não poderiam ser diferentes, necessárias, portanto. Desse
tipo de coisa, dizer que é necessário eu estar aqui a fazer tal trabalho, é não
ter a distinção correta das coisas. Dois mais cinco sempre serão sete, e isso
não poderia ser diferente: “... é absolutamente necessária só aquela cujo
contrário implique contradição”. [9]
Quanto a mim, é completamente pensável, portanto, não contraditório, que eu
esteja nesse momento atravessando o Rubicão de Júlio César. O fato de eu não
estar, porém, não anula a contingência do evento, apenas nos coloca num outro
registro que deve ser esclarecido para mantermo-nos na análise: a ação moral de
Deus.
A questão da existência do mundo e de todos os seus
elementos presentifica-se no Princípio de Razão Suficiente. No entendimento de
Deus, há inúmeras possibilidades, e, portanto, eu estar fazendo o trabalho, bem
como atravessando o Rubicão são coisas possíveis em si. O que garante, contudo,
a existência de um desses eventos em relação ao outro, inscrito na minha noção
individual, é justamente a Razão Suficiente de Deus que decide por um deles.
Portanto, como Deus age sempre da melhor forma possível, um evento é preferível
a outro, sem excluir a contingência do fato, pois como dito, é plenamente
pensado que pudesse ser diferente. De tal modo, a distinção já feita recebe
ainda mais nitidez. Moralmente, Deus em sua liberdade, faz sempre o melhor.
Pois o fundamento da vontade tem de ser a liberdade. Guiado por uma razão que
fundamenta tal vontade e, portanto, pensando na criação do mundo como um todo,
cada evento e cada acontecimento são certos e serão dessa maneira o melhor
evento possível, sem abandonar a contingência.
Um erro em que
possamos cair, por exemplo, ao questionar sobre o trabalho feito nesse momento
por mim ou em minha liberdade de estar no Rubicão, coloca-se se pensarmos em
cada coisa individualmente. Isso ocorre quando “... pretendemos limitá-los
[fins] a algum desígnio particular, acreditando que ele só tem em vista uma
coisa, ao passo que Deus tem em vista tudo, ao mesmo tempo.” [10]
Seria um problema pensar que Deus obriga-me a estar nesse momento no local em
que eu, por ventura, não gostaria de estar, já que apenas vejo desenrolarem-se
os eventos de minha noção individual. Mas isso, para Leibniz, não pode ser
interpretado dessa forma. Por mais que os fatos sejam determinados, sei que uma
ação em razão a outra é preferível, porque se não fosse, não haveria liberdade
de Deus de escolher a melhor, e com isso, no conjunto dos eventos do mundo tudo
está dentro da melhor ordem possível, sem excluir a minha liberdade, que
afinal, fora plenamente considerada por Deus do tocante aos acontecimentos, já
que sou em si mesmo, uma noção completa,
É claro que
muito se discute sobre o estatuto dessa liberdade colocada por Leibniz. A
Harmonia Pré - Estabelecida por Deus no momento da criação coloca em completa
sintonia todos os eventos do mundo, bem como a expressão de todos os indivíduos
que dele participam. Nesse sistema em que “... cada substância singular exprime
todo o universo à sua maneira...” [11] a
razão das cosias serem como são, é muito bem fundamentada e ao mesmo tempo,
garante a contingência. Ora, poderia se pensar que nesse mundo lebniziano, onde
as causas são determinadas por Deus, sendo o homem (substância individual)
integrante do mundo, está condicionado aos eventos exteriores que, já
decididos, influenciarão todas as suas decisões e ações. Mas não ocorre bem
assim. Pois observando com mais atenção a questão, notamos que a noção
individual é completa e autônoma,
pois embora a influência seja ideal, (vide a Harmonia que sintoniza todas as
substâncias criadas e suas respectivas expressões) “as Mônada não têm janelas
por onde qualquer coisa possa entrar nem sair... assim, nem substância, nem
acidente podem vir de fora para dentro das Mônadas.” [12]
Acrescenta-se ainda: “... as mudanças naturais das Mônadas procedem de um princípio interno, pois no seu íntimo
não poderia influir causa alguma externa.” [13]
Ora, visto tais definições, a questão de se pensar a autonomia, num mundo
determinado, parece ganhar ainda mais vulto. Pois as substâncias, sendo
completas e não possuindo influência real do resto do mundo, se vem no tempo,
no desenrolar de seu destino, apenas as suas próprias noções, qual seja, veem [as substâncias] a sua própria
liberdade sendo colocada. Como já dito, Deus não teria criado as criaturas sem
ter levado em conta o melhor para elas, e a liberdade de cada uma é assegurada
nas ações que dela seguirão. Inclinadas as criaturas a tais e tais ações, sem
que com isso se torne algo necessário (como as leis que regem as matemáticas)
elas embora pudessem ser diferentes, (portanto a contingência é garantida) por
simples decreto do melhor possível, não o serão. Mesmo que se pense em uma
liberdade ideal, na possibilidade de se pensar um fato que não seja o que está
ocorrendo nesse momento, seria ir contra o sistema de Leibniz afirmar a
completa determinação de todas as coisas.
A bondade na perfeição divina, já seria no tocante a
própria criação, uma forma de se pensar a liberdade das criaturas considerada
na economia do mundo. Perceber, ainda que seja desdobrar-se; ver a noção mesma
desenvolver-se diante à própria criatura, por meio da razão, da contemplação à
Glória de Deus, parece mais uma vez uma forma de se incluir a possibilidade de
se pensar, livremente, a noção
individual: “... em lugar de dizer que somos livres somente em aparência e de
uma maneira que é suficiente para propósitos práticos, como creram várias
pessoas de espíritos, deve-se dizer, mais propriamente, que nós apenas
aparentemente somos determinados, e que, expresso metafisicamente de forma
rigorosa, nós somos perfeitamente independentes no que diz respeito á
influência de todas as outras criaturas.” [14]
É claro que para
entender essa liberdade, no tocante ao mundo criado, não nos é possível pensar
Determinismo e Livre Arbítrio como coisas antagônicas. O filósofo em várias
ocasiões lança argumentos que nos colocam na pista de perceber que a nossa
razão é a expressão original para conhecer e entender o mundo: “Pode-se dizer
que toda substância traz de certa maneira o caráter da sabedoria infinita e da
onipotência de Deus e imita-o o quanto pode. Por isso exprime, embora confusamente,
tudo o que acontece no universo, passado, presente ou futuro, o que tem certa
semelhança com a percepção ou conhecimento infinito. E como todas as outras
substâncias por sua vez exprimem esta e a ela se acomodam, pode-se dizer que
ela estende seu poder a todas as outras, à semelhança da onipotência do
Criador.” [15] Não
seria, ao ter ciência do potencial da razão humana para estender-se a
compreensão de todo universo, um forte argumento para se pensar a liberdade de
perceber a tamanha sabedoria do Obreiro e logo a perfeição da Obra [mundo]? Em
outra passagem Leibniz nos diz: “E como a visão de Deus é sempre verdadeira, as
nossas percepções igualmente o são, mas
nossos juízos, que são apenas nossos, nos enganam.” [16]
Vejamos que há diversos pontos para se pensar a nossa liberdade, mesmo que o
determinismo de nossa noção completa seja uma realidade. Os juízos, colocados
por Leibniz como nossos, parecem manter certa autonomia e podem ser efetuados
ou não, uma vez que são apenas nossos. Refletir sobre a produção desse
trabalho, ou estar no Rubicão, perece ser uma forma de, utilizando da razão e
considerando a melhor escolha a se fazer, ter acesso a uma parte de minha noção
que tem na liberdade, pelo menos no nível de meu refletir, sua expressão.
No tocante a
esta reflexão, faz-se importante (por que não necessário), abordar pontos que
Leibniz define centrais para se pensar a liberdade, a saber: “... contingência,
a espontaneidade e a inteligência.” [17]
Ora, colocado o plano da racionalidade, atributo, poderíamos dizer, de certa
maneira, essencial (sem cair, aqui, num cartesianismo completo) é nesse ponto
que Leibniz se coloca a tratar a questão do arbítrio. Se possuímos, e
fortemente assegurada em Leibniz, a expressão de todo universo a nossa maneira
e é impossível, da mesma forma, que:
“... reflitamos sempre expressamente sobre todos
os nossos pensamentos”[18] é
razoável concluir que devemos escolher sobre quais pensamentos voltaremos nossa
atenção. Com a contingência dos fatos sendo assegurada, havendo inclinação de um
evento a outro, mas sem tornar-se necessário, a inteligência que se faz no
nível da reflexão, como forma de almejar à compreensão de todo universo e de
nossas ações, poderia ser mais um elemento para se pensar a liberdade.
Como um herdeiro do Idealismo cartesiano,
talvez sendo seu maior expoente entre os pós-cartesianos, Leibniz parece
conseguir garantir a autonomia [liberdade] da razão, sem perder de vista os fins que asseguram a ótica do melhor
acontecimento possível. O fato de refletir, exercer a razão e tendo ciência de
que “... todos os fenômenos, quer dizer, tudo o quanto alguma vez pode
acontecer-nos, é apenas conseqüência do nosso ser” [19]
parece mais uma vez nos revelar uma autonomia da substância, que não pode
ignorar o determinismo de sua noção completa em seu desenrolar-se, mas pelo
contrário, tem plena ciência que sua liberdade e a sua razão em percebê-la,
constitui a melhor forma de arbítrio possível.
É claro que esse
arbítrio deve ser entendido como Leibniz o coloca, afinal, como já dito o Contingente,
já tanto insistido, (que garantiria certa liberdade) deve ser pensado em
relação ao necessário, do qual também algo já fora colocado: “Toda a gente
concordará estarem assegurados os futuros contingentes, visto Deus os prever,
mas daqui não se segue a sua necessidade.” [20]
Parece que,
mesmo com o determinismo no mundo, e com isso, Leibniz nos diz parecer: “... destruir-se a diferença entre as verdades continentes
e necessárias, não haver lugar para liberdade humana, e reinar sobre todas as
nossas ações bem como sobre todos os restantes acontecimentos do mundo uma
fatalidade absoluta...” [21]
eu estar aqui sentado a fazer este trabalho pensando no Rubicão de Júlio César,
tomando café ou água, não deixam de ser eventos que dependem apenas de minha
noção individual. E com isso, a contingência dos fatos seguir-se-á muito bem
assegurada, sendo possível e mais do que isso, sendo verdadeiro, o livre
arbítrio tanto de Deus, como das criaturas.
Fábio M Vargas
[1] G. W.
Leibniz, “Discurso de Metafísica” pg. – 86 Ed. Os Pensadores, Abril Cultural,
1974.
[2] IBID,
pg. - 86
[3] IBID, pg. - 86
[4] IBID, pg. - 78
[5] IBID, pg. - 77
[6] IBID, pg. - 87
[7] IBID, pg. - 93
[8] IBID, pg. - 86
[9] IBID, pg. - 86
[10] IBID, pg. - 93
[11] IBID, pg. - 83
[12] G. W.
Leibniz “A Monadologia” Pg. 63 Ed. Os Pensadores, Abril Cultural, 1974
[13] IBID,
pg. - 64
[14] G. W.
Leibniz, “Sistema Novo da Natureza e da comunicação das substâncias” Ed. UFMG,
pg. - 28
[15] G. W.
Leibniz, “Discurso de Metafísica” pg. – 83 Ed. Os Pensadores, Abril Cultural,
1974
[16] IBID,
pg. - 88 (Grifo meu)
[17] T. M.
Lacerda, Cad. Hist. Fil. Ci. Campinas, Série 3, v. 12, n. 1-2, p. 171-186,
jan.-dez. 2002.
[18] G. W
Leibniz, Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano, II, I, §19; pp. 68-69. Trad. de L. J. Baraúna. São Paulo: Abril
Cultural, 1980. (Grifo meu)
[19] G. W.
Leibniz, “Discurso de Metafísica” pg. – 88 Ed. Os Pensadores, Abril Cultural,
1974
[20] IBID,
pg. - 86
[21] IBID, pg. - 85
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