2 de julho de 2014

A Noção Completa como Determinismo e Liberdade em Leibniz

O presente artigo procura dar uma pequena possibilidade de reflexão concernente a um tema da filosofia leibniziana, a saber, a problemática que envolve a teorização de um determinismo que parece ser o mais fechado possível com a liberdade, no que diz às criaturas e ao mundo criado. Partindo da “Noção Completa” e baseando-se, restritamente, no parágrafo 13 da obra Discurso de metafísica de Leibniz, procura-se tratar que, mesmo com a aparente contradição, no sistema leibniziano, tanto um determinismo inevitável quanto uma liberdade legítima são assuntos não apenas possíveis, mas compossíveis.


Palavras-Chaves - Leibniz, determinismo, liberdade, “Discurso de metafísica”.

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“Como a noção individual de cada pessoa encerra de uma vez por todas quanto lhe acontecerá, nela se vêem as provas a priori da verdade de cada acontecimento ou a razão de ter ocorrido um de preferência a outro. Estas verdades, porém, embora asseguradas, não deixam de ser contingentes, pois fundamentam-se no livre-arbítrio de Deus ou das criaturas, cuja escolha tem sempre suas razões, inclinando sem tornar necessário.”

Leibniz – Discurso de metafísica


A noção individual de cada pessoa, em outros momentos da teorização leibniziana: Mônada reúne absolutamente todos os acontecimentos que se desenrolarão no destino de cada sujeito. Num determinismo anunciado, as provas a Priori de um acontecimento em preferência a outro, estão inscritos na substância individual, e no tempo, encontram ocasião de se fazerem visíveis. Tal colocação que abarca todos os fatos do mundo bem como os sujeitos que nele se encontram, porém, concilia-se com a contingência, pois fundada no livre arbítrio de Deus, das quais às das criaturas também têm expressão, garante que a possibilidade de todos os fatos não contraditórios (em sentido amplo) seja real, garantindo que o determinismo, embora seja certo, não suprima completamente a liberdade.

A conciliação entre essas duas vias que parecem contraditórias é insistida em todo percurso do Filósofo, e algumas colocações são necessárias para elucidar a questão.
“Visto que Júlio César haverá de tornar-se ditador perpétuo e senhor da república e suprimirá a liberdade dos romanos, esta ação está contida na sua noção...” [1]. Ora, como dito, visto que os acontecimentos estão contidos, todos, na noção individual, no exemplo posto pelo próprio Leibniz, Júlio César em suas ações que se desenvolverão, tem em sua substância individual a história do desdobramento de cada ação que se fará em seu destino. Os fatos de suprimir a liberdade dos romanos e ser ditador perpétuo, ainda que escapem à “visão” antes de serem fatos empíricos do próprio Júlio César, são realidades no interior de sua substância desde seu nascimento. Continua Leibniz: “... porquanto supomos ser da natureza da noção perfeita dum sujeito compreender tudo acerca dele.” [2] A noção perfeita dum sujeito, e perfeita no máximo grau, pois assegurada pela criação de Deus que faz sempre o melhor possível, dessa forma, encerra em si mesma, como princípio, toda história de cada sujeito, abarcando todos os eventos que venham a se realizar. Tendo sido Deus o Obreiro que deu a Júlio César tal noção “... é necessário satisfazê-la” [3]. Tudo parece caminhar para o mais alto nível da impossibilidade de se assegurar a liberdade, já que o mundo, criado na mais perfeita ordem e, como assevera o Filósofo: “é agir imperfeitamente agir com menos perfeição do que se teria podido” [4], não pode ser diferente, se tal fosse, colocaria a questão de não ter sido o melhor possível em sua criação e desdobramento. Coisa impensada para Deus: “... um Ser absolutamente perfeito” [5].

A distinção entre Necessário e Certo lançada por Leibniz, contudo, nos mostra que o determinismo impresso na noção individual não exclui a contingência, e logo, a liberdade. Expliquemos. O fato de Júlio César ter preferido “... atravessar o Rubicão a deter-se nele” [6] é algo certo, afinal “... Deus se propôs a fazê-lo, pois Deus nada faz por acaso, nem se assemelha a nós, a quem por vezes escapa fazer o bem” [7]. Dessa forma, Júlio César atravessa o Rubicão e nele não se detém, pois em sua noção individual tal evento encontra-se posto. Mas pensar outra possibilidade para o acontecimento não implica qualquer contradição lógica, a saber, Júlio César poderia sem problemas haver se detido no Rubicão. Dizemos disso, sem erro, que: “É certo, mas não necessário o que se sucede em conformidade a estas antecipações, e que se alguém fizesse o contrário não faria coisa em si impossível, embora fosse impossível que tal acontecesse.” [8] Tal distinção que Leibniz nos apresenta parece garantir a contingência dos eventos. Detenho-me mais. Estar aqui, nesse momento, fazendo tal trabalho, é algo certo, visto que esse acontecimento encontra-se incluído em minha noção individual, e, portanto irá se desenvolver e será parte da história de meu destino. Todavia, em nível da Necessidade, não se pode dizê-la de tal evento sem incorrer num erro. Verdades matemáticas, como a soma dos ângulos internos de um triângulo ser 180 graus, são enquadradas como verdades que não poderiam ser diferentes, necessárias, portanto. Desse tipo de coisa, dizer que é necessário eu estar aqui a fazer tal trabalho, é não ter a distinção correta das coisas. Dois mais cinco sempre serão sete, e isso não poderia ser diferente: “... é absolutamente necessária só aquela cujo contrário implique contradição”. [9] Quanto a mim, é completamente pensável, portanto, não contraditório, que eu esteja nesse momento atravessando o Rubicão de Júlio César. O fato de eu não estar, porém, não anula a contingência do evento, apenas nos coloca num outro registro que deve ser esclarecido para mantermo-nos na análise: a ação moral de Deus.

A questão da existência do mundo e de todos os seus elementos presentifica-se no Princípio de Razão Suficiente. No entendimento de Deus, há inúmeras possibilidades, e, portanto, eu estar fazendo o trabalho, bem como atravessando o Rubicão são coisas possíveis em si. O que garante, contudo, a existência de um desses eventos em relação ao outro, inscrito na minha noção individual, é justamente a Razão Suficiente de Deus que decide por um deles. Portanto, como Deus age sempre da melhor forma possível, um evento é preferível a outro, sem excluir a contingência do fato, pois como dito, é plenamente pensado que pudesse ser diferente. De tal modo, a distinção já feita recebe ainda mais nitidez. Moralmente, Deus em sua liberdade, faz sempre o melhor. Pois o fundamento da vontade tem de ser a liberdade. Guiado por uma razão que fundamenta tal vontade e, portanto, pensando na criação do mundo como um todo, cada evento e cada acontecimento são certos e serão dessa maneira o melhor evento possível, sem abandonar a contingência.

Um erro em que possamos cair, por exemplo, ao questionar sobre o trabalho feito nesse momento por mim ou em minha liberdade de estar no Rubicão, coloca-se se pensarmos em cada coisa individualmente. Isso ocorre quando “... pretendemos limitá-los [fins] a algum desígnio particular, acreditando que ele só tem em vista uma coisa, ao passo que Deus tem em vista tudo, ao mesmo tempo.” [10] Seria um problema pensar que Deus obriga-me a estar nesse momento no local em que eu, por ventura, não gostaria de estar, já que apenas vejo desenrolarem-se os eventos de minha noção individual. Mas isso, para Leibniz, não pode ser interpretado dessa forma. Por mais que os fatos sejam determinados, sei que uma ação em razão a outra é preferível, porque se não fosse, não haveria liberdade de Deus de escolher a melhor, e com isso, no conjunto dos eventos do mundo tudo está dentro da melhor ordem possível, sem excluir a minha liberdade, que afinal, fora plenamente considerada por Deus do tocante aos acontecimentos, já que sou em si mesmo, uma noção completa,

É claro que muito se discute sobre o estatuto dessa liberdade colocada por Leibniz. A Harmonia Pré - Estabelecida por Deus no momento da criação coloca em completa sintonia todos os eventos do mundo, bem como a expressão de todos os indivíduos que dele participam. Nesse sistema em que “... cada substância singular exprime todo o universo à sua maneira...” [11] a razão das cosias serem como são, é muito bem fundamentada e ao mesmo tempo, garante a contingência. Ora, poderia se pensar que nesse mundo lebniziano, onde as causas são determinadas por Deus, sendo o homem (substância individual) integrante do mundo, está condicionado aos eventos exteriores que, já decididos, influenciarão todas as suas decisões e ações. Mas não ocorre bem assim. Pois observando com mais atenção a questão, notamos que a noção individual é completa e autônoma, pois embora a influência seja ideal, (vide a Harmonia que sintoniza todas as substâncias criadas e suas respectivas expressões) “as Mônada não têm janelas por onde qualquer coisa possa entrar nem sair... assim, nem substância, nem acidente podem vir de fora para dentro das Mônadas.” [12] Acrescenta-se ainda: “... as mudanças naturais das Mônadas procedem de um princípio interno, pois no seu íntimo não poderia influir causa alguma externa.” [13] Ora, visto tais definições, a questão de se pensar a autonomia, num mundo determinado, parece ganhar ainda mais vulto. Pois as substâncias, sendo completas e não possuindo influência real do resto do mundo, se vem no tempo, no desenrolar de seu destino, apenas as suas próprias noções, qual seja, veem [as substâncias] a sua própria liberdade sendo colocada. Como já dito, Deus não teria criado as criaturas sem ter levado em conta o melhor para elas, e a liberdade de cada uma é assegurada nas ações que dela seguirão. Inclinadas as criaturas a tais e tais ações, sem que com isso se torne algo necessário (como as leis que regem as matemáticas) elas embora pudessem ser diferentes, (portanto a contingência é garantida) por simples decreto do melhor possível, não o serão. Mesmo que se pense em uma liberdade ideal, na possibilidade de se pensar um fato que não seja o que está ocorrendo nesse momento, seria ir contra o sistema de Leibniz afirmar a completa determinação de todas as coisas.

A bondade na perfeição divina, já seria no tocante a própria criação, uma forma de se pensar a liberdade das criaturas considerada na economia do mundo. Perceber, ainda que seja desdobrar-se; ver a noção mesma desenvolver-se diante à própria criatura, por meio da razão, da contemplação à Glória de Deus, parece mais uma vez uma forma de se incluir a possibilidade de se pensar, livremente, a noção individual: “... em lugar de dizer que somos livres somente em aparência e de uma maneira que é suficiente para propósitos práticos, como creram várias pessoas de espíritos, deve-se dizer, mais propriamente, que nós apenas aparentemente somos determinados, e que, expresso metafisicamente de forma rigorosa, nós somos perfeitamente independentes no que diz respeito á influência de todas as outras criaturas.” [14]

É claro que para entender essa liberdade, no tocante ao mundo criado, não nos é possível pensar Determinismo e Livre Arbítrio como coisas antagônicas. O filósofo em várias ocasiões lança argumentos que nos colocam na pista de perceber que a nossa razão é a expressão original para conhecer e entender o mundo: “Pode-se dizer que toda substância traz de certa maneira o caráter da sabedoria infinita e da onipotência de Deus e imita-o o quanto pode. Por isso exprime, embora confusamente, tudo o que acontece no universo, passado, presente ou futuro, o que tem certa semelhança com a percepção ou conhecimento infinito. E como todas as outras substâncias por sua vez exprimem esta e a ela se acomodam, pode-se dizer que ela estende seu poder a todas as outras, à semelhança da onipotência do Criador.” [15] Não seria, ao ter ciência do potencial da razão humana para estender-se a compreensão de todo universo, um forte argumento para se pensar a liberdade de perceber a tamanha sabedoria do Obreiro e logo a perfeição da Obra [mundo]? Em outra passagem Leibniz nos diz: “E como a visão de Deus é sempre verdadeira, as nossas percepções igualmente o são, mas nossos juízos, que são apenas nossos, nos enganam.” [16] Vejamos que há diversos pontos para se pensar a nossa liberdade, mesmo que o determinismo de nossa noção completa seja uma realidade. Os juízos, colocados por Leibniz como nossos, parecem manter certa autonomia e podem ser efetuados ou não, uma vez que são apenas nossos. Refletir sobre a produção desse trabalho, ou estar no Rubicão, perece ser uma forma de, utilizando da razão e considerando a melhor escolha a se fazer, ter acesso a uma parte de minha noção que tem na liberdade, pelo menos no nível de meu refletir, sua expressão.

No tocante a esta reflexão, faz-se importante (por que não necessário), abordar pontos que Leibniz define centrais para se pensar a liberdade, a saber: “... contingência, a espontaneidade e a inteligência.” [17] Ora, colocado o plano da racionalidade, atributo, poderíamos dizer, de certa maneira, essencial (sem cair, aqui, num cartesianismo completo) é nesse ponto que Leibniz se coloca a tratar a questão do arbítrio. Se possuímos, e fortemente assegurada em Leibniz, a expressão de todo universo a nossa maneira e  é impossível, da mesma forma, que: “... reflitamos sempre expressamente sobre todos os nossos pensamentos”[18] é razoável concluir que devemos escolher sobre quais pensamentos voltaremos nossa atenção. Com a contingência dos fatos sendo assegurada, havendo inclinação de um evento a outro, mas sem tornar-se necessário, a inteligência que se faz no nível da reflexão, como forma de almejar à compreensão de todo universo e de nossas ações, poderia ser mais um elemento para se pensar a liberdade.

 Como um herdeiro do Idealismo cartesiano, talvez sendo seu maior expoente entre os pós-cartesianos, Leibniz parece conseguir garantir a autonomia [liberdade] da razão, sem perder de vista os fins que asseguram a ótica do melhor acontecimento possível. O fato de refletir, exercer a razão e tendo ciência de que “... todos os fenômenos, quer dizer, tudo o quanto alguma vez pode acontecer-nos, é apenas conseqüência do nosso ser” [19] parece mais uma vez nos revelar uma autonomia da substância, que não pode ignorar o determinismo de sua noção completa em seu desenrolar-se, mas pelo contrário, tem plena ciência que sua liberdade e a sua razão em percebê-la, constitui a melhor forma de arbítrio possível.
É claro que esse arbítrio deve ser entendido como Leibniz o coloca, afinal, como já dito o Contingente, já tanto insistido, (que garantiria certa liberdade) deve ser pensado em relação ao necessário, do qual também algo já fora colocado: “Toda a gente concordará estarem assegurados os futuros contingentes, visto Deus os prever, mas daqui não se segue a sua necessidade.” [20]

Parece que, mesmo com o determinismo no mundo, e com isso, Leibniz nos diz parecer: “... destruir-se a diferença entre as verdades continentes e necessárias, não haver lugar para liberdade humana, e reinar sobre todas as nossas ações bem como sobre todos os restantes acontecimentos do mundo uma fatalidade absoluta...” [21] eu estar aqui sentado a fazer este trabalho pensando no Rubicão de Júlio César, tomando café ou água, não deixam de ser eventos que dependem apenas de minha noção individual. E com isso, a contingência dos fatos seguir-se-á muito bem assegurada, sendo possível e mais do que isso, sendo verdadeiro, o livre arbítrio tanto de Deus, como das criaturas.

Fábio M Vargas

Notas: 




[1] G. W. Leibniz, “Discurso de Metafísica” pg. – 86 Ed. Os Pensadores, Abril Cultural, 1974.
[2] IBID, pg. - 86
[3] IBID, pg. - 86
[4] IBID, pg. - 78
[5] IBID, pg. - 77
[6] IBID, pg. - 87
[7] IBID, pg. - 93
[8] IBID, pg. - 86
[9] IBID, pg. - 86
[10] IBID, pg. - 93
[11] IBID, pg. - 83
[12] G. W. Leibniz “A Monadologia” Pg. 63 Ed. Os Pensadores, Abril Cultural, 1974
[13] IBID, pg. - 64
[14] G. W. Leibniz, “Sistema Novo da Natureza e da comunicação das substâncias” Ed. UFMG, pg. - 28
[15] G. W. Leibniz, “Discurso de Metafísica” pg. – 83 Ed. Os Pensadores, Abril Cultural, 1974
[16] IBID, pg. - 88 (Grifo meu)
[17] T. M. Lacerda, Cad. Hist. Fil. Ci. Campinas, Série 3, v. 12, n. 1-2, p. 171-186, jan.-dez. 2002.
[18] G. W Leibniz, Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano, II, I, §19; pp. 68-69.  Trad. de L. J. Baraúna. São Paulo: Abril Cultural, 1980. (Grifo meu)
[19] G. W. Leibniz, “Discurso de Metafísica” pg. – 88 Ed. Os Pensadores, Abril Cultural, 1974
[20] IBID, pg. - 86
[21] IBID, pg. - 85

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